(Re)construção com Método — Episódio 2
Depois de reconhecer que eu precisava mudar — como contei no primeiro episódio —, a corrida não apareceu como opção. Naquele momento, ela simplesmente não fazia parte do meu horizonte possível.
Eu sempre tive asma. Isso é um fato. Cresci ouvindo que algumas atividades exigiam cuidado, mas a convicção de que correr não era para mim foi sendo construída principalmente dentro de mim. Eu mesmo alimentava essa ideia, quase sem perceber. Para mim, correr era coisa de outras pessoas — mais leves, mais preparadas, naturalmente “atléticas”. Eu nunca me incluí nesse grupo.
Entre um fechamento e outro da pandemia, decidi tentar algo diferente. Fui nadar na AABB. Não era improviso. Havia estrutura, professores qualificados e orientação adequada. Do ponto de vista racional, parecia a escolha correta: baixo impacto, ambiente controlado, acompanhamento profissional. E eu fui.
Eu saía exausto. Não era um cansaço leve ou simbólico. Era o tipo de exaustão compatível com alguém acima do peso e há muito tempo sedentário. Ainda assim, havia uma sensação positiva: a de que eu estava, finalmente, fazendo alguma coisa. Não era ainda uma mudança consolidada, mas era movimento.
Com o passar dos dias, porém, dois pontos começaram a pesar.
O primeiro era interno. Eu achava monótono. O vai e volta constante na mesma raia não me envolvia de verdade. O segundo era prático: eu precisava encaixar as aulas na minha agenda já bastante exigente. Naquele período eu cursava minha segunda faculdade, fazia uma pós-graduação e trabalhava em tempo integral. Manter horários fixos de turma exigia uma compatibilidade que simplesmente não existia. Durou poucas semanas.
Então comecei a caminhar apenas para não ficar parado. Não havia plano definido nem expectativa de desempenho. Era apenas uma forma de manter o corpo em atividade e de criar algum espaço de movimento na rotina. E, aos poucos, fui tomando gosto. As caminhadas deixaram de ser uma tentativa pontual e passaram a ocupar um lugar mais constante nos meus dias. Eu ainda estava longe de qualquer método, mas, sem perceber, começava a construir dentro de mim algo novo — uma disposição diferente em relação ao esforço.
Hoje, olhando para trás, percebo que aquele período não foi sobre desempenho, mas sobre ruptura. Mesmo sem método claro, eu já estava quebrando a imobilidade que tinha se instalado. Ainda não era a reconstrução com método. Mas era o início silencioso dela.
Faltava direção. E ela viria.
Continua.
Ainda não cheguei lá. É só o começo.
— Michel by Sync

Gente.. apaixonante sua história de descoberta de si mesmo!!!
E tud muito bem escrito, envolvente, estimulante!!!
Obrigado por me mostrar o projeto, com estes 4 primeiros posts.
Totalmente aprovado!
Eu que tenho que agradecer a você.
Além de meu amigo, é o primeiro leitor do meu projeto. E também grande inspiração para que ele saísse do papel.