No meio do treino tive a sensação de que algo não estava funcionando como deveria. O vento estava mais forte do que o normal e, depois do segundo intervalo de corrida, parecia sempre contra mim, como se estivesse ali apenas para tornar cada bloco um pouco mais pesado. O ritmo caía de um intervalo para o outro e, por alguns minutos, pensei que talvez estivesse rendendo pior do que nos dias anteriores.
O treino em si era simples: intervalos alternando corrida e caminhada em um percurso de ida e volta. Fiz quatro ciclos completos na ida e outros quatro na volta. Na primeira metade, o vento soprava diretamente contra; na segunda, mudou de direção e ficou mais lateral. Para completar o cenário, uma pancada rápida de chuva apareceu exatamente quando iniciei o retorno.

Com esse cenário, a leitura durante o treino parecia clara: hoje não estava tão bom quanto deveria. Mas essa percepção começou a mudar quando olhei os dados com mais calma depois do treino. A potência se manteve relativamente estável ao longo dos intervalos, indicando que o esforço havia sido consistente. O vento contra na primeira metade provavelmente explicou boa parte da queda de ritmo.
Além disso, o Garmin registrou Performance Condition +2 durante o treino — um sinal de que, naquele momento, meu corpo estava rendendo um pouco melhor do que o esperado para aquele esforço. Ou seja, apesar da sensação de dificuldade, não havia sinal de regressão.
Na verdade, alguns indicadores apontavam na direção oposta. Alguns dias antes, inclusive, o VO₂ estimado havia subido de 34 para 35. Não é uma mudança grande, mas é exatamente o tipo de progresso discreto que costuma aparecer quando o corpo começa a responder aos estímulos do treinamento.
Foi então que o treino ganhou outro significado. O ritmo, isoladamente, pode enganar. Vento, terreno, temperatura e até o próprio cansaço acumulado influenciam muito a forma como percebemos o esforço enquanto corremos. Quando olhados com calma, os dados ajudam a colocar essas sensações em perspectiva.
Nem todo treino difícil é um treino ruim. Às vezes é apenas um treino difícil — feito em condições menos favoráveis, mas ainda assim produzindo exatamente o estímulo que o corpo precisa para continuar evoluindo.
Ainda não cheguei lá. É só o começo.
— Michel by Sync
